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Entries from December 2007

Dia 7 – O fim (ou como Ivan Lessa me venceu mesmo)

December 27, 2007 · 3 Comments

E então Ivan Lessa me venceu.

Não há ironia maior a ser feita sobre o Rio do que o ponto alto de seu relato, a visita que fez à cidade depois de 28 anos longe. Uma hora ouve um estrondo: foi a Favela do Vidigal que cresceu mais um pouco.

Na paisagem, tenho a impressão de que o estrondo se repete o tempo todo. Uma fábrica de leite, ao lado da estação do Metrô do Jacaré, faliu uns anos atrás. Me acostumei a vê-la fechada em cada visita. Agora há uma favela lá dentro. Ainda cercada pelos muros, ocupa o que antes eram os pátios do prédio. O próprio prédio foi ocupado.

No horizonte, em São Cristóvão, ao lado do prédio que avistava sempre que ia treinar no Vasco, mais uma favela. O prédio antes estava ali sozinho. Fica em curva, no alto do morro. Se não me engano, é cenário do filme Central do Brasil.

No Vidigal, uma nova favela, agora voltada para o Leblon. Antes, ficava virada apenas para São Conrado.

Não é preciso muito para adivinhar o que vai acontecer. É pegar o Google Earth e perceber que favelas antes isoladas umas das outras agora se conectam. Assim, nasceu o “Complexo do Alemão”, uma massa que se estende por muitos bairros e morros. A Vila Cruzeiro fez o mesmo caminho.

Eis, então, o que está para acontecer: daqui a dez anos o que se chama de Rio continuará sendo aqueles mesmos bairros para turistas. Umas poucas ruas de frente para o mar com centenas de policiais espalhados para dar a falsa impressão de segurança. O resto será uma imensa e incontrolável favela nascida na zona sul e a se estender em todas as direções, indo aos limites da cidade. Tudo vai piorar, tudo continuará igual. O carioca continuará de costas para o que acontece, olhando a paisagem. Tudo ficará bem enquanto os turistas continuarem vindo. Se o barulho de tiros se tornar insuportável é só aumentar o volume do aparelho de som ou da TV, dizer que a violência é uma invenção da Globo, discutir quem será a musa do carnaval, etc.

Hoje à noite embarco de volta. Não foi ruim, não foi bom. O Rio sabe divertir. Há coisas que só encontro aqui: coxinhas de galinha, boas empadas, uma casa de suco e um vendedor de cocos em cada esquina, amigos antigos, livrarias de verdade, não megastores. Mas no fim das contas qualquer cidade já não tem tantos encantos depois da segunda ou da terceira visita. Descobri isso indo muitas vezes a São Paulo. Sinto o mesmo sobre Porto Alegre. No caso do Rio, havia os laços que me fizeram querer morar aqui. Ter a falsa sensação de ser um privilegiado por viver na mais bela cidade do mundo. Esses não existem mais. Quando puser os pés de novo fora daqui voltarei a tentar superar Ivan Lessa. Mesmo que ele sempre vá me vencer.

Penso nos 28 anos de seu exílio. Começaram, como amanhã, com um primeiro dia, depois outro, outro, outro, outro…

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Dia 6 – Solvitur ambulando (ou a arte de se lamentar nas ruas do Rio)

December 26, 2007 · Leave a Comment

De volta ao centro, rendo homenagem à minha obra favorita sobre (passada n´) o Rio.

O conto A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro é a mais pungente/relevante história que tem a cidade como cenário desde João do Rio e Lima Barreto. Augusto, o andarilho, vaga melancolicamente pelo centro tentando reencontrar um Rio que não existe mais: o Rio antigo, o Rio de belle époque, quando a cidade se prestava ao flaneur. Sua solução para tudo de ruim que vê, para seus próprios problemas, é andar. Solvitur ambulando, repete sempre.

Anos atrás, escrevi um ensaio sobre o conto para fazer mestrado em literatura. Depois de algumas releituras, me dei conta de que Augusto parece preso ao centro. Mora no centro, se alimenta no centro. Não vai a outro lugar. O Rio que o interessa deve ser visto das ruas, não do alto ou do mar. No centro, encontra a companhia da prostituta que o acompanhará em suas caminhadas. A prostituta não se interessa pela história da cidade. Não quer saber se este ou aquele personagem viveu neste ou naquele sobrado que agora é uma loja/depósito/igreja evangélica. Quer muito mais fazer sexo com o andarilho, que não parece atraído por ela.

De todo modo é um Rio que vale muito a pena ver. O centro do Rio podia ser tão belo quanto o centro de Buenos Aires. Não faltam construções antigas, ruas e ruas delas, mas a ocupação por um comércio nada turístico e o perigo que é caminhar em alguns locais levou à degradação. A cidade fez a opção de ser um só tipo de cartão postal e assim será até que só tenham sobrado os prédios do governo.

Desde que li o conto ainda não tinha voltado. Hoje, caminhando pelo centro, procurei alguns dos locais por onde passa o personagem. Alguns estão próximos de desaparecer, como o antigo cinema freqüentado por Rui Barbosa, cujo teto se abria nas noites estreladas. Primeiro o prédio foi dividido em dois. Uma parte virou uma sapataria, outra já andava fechada. Agora ambas as lojas estão fechadas. O prédio está muito mal conservado.

Uma parada no Real Gabinete Português de Leitura, ultimamente citado em sites estrangeiros entre as cinco bibliotecas mais bonitas do mundo. É mesmo. E agora, além de tudo, estão expostos manuscritos de Machado de Assis (tinha letra pequena), Eça de Queiróz (rabiscava tudo, fazia uma bela confusão) e João do Rio (uma tradução de Salomé, de Oscar Wilde). Espero que a segurança seja melhor do que a do Masp e que uma hora dessas não leia que foram roubados.

Uma parada na galeria da Rua do Ouvidor onde funcionava a loja responsável por boa parte da minha formação musical. A Gramophone tinha um belíssimo acervo de CDs e – quando ainda se vendia isso – fitas. Com suas coletâneas Cruisin, importadas, me aprofundei no rock dos anos 50 e 60. Não sobreviveu à pirataria e à MP3. Há uma farmácia de manipulação no local. Em frente, na mesma galeria, funcionava uma livraria onde o forte eram os livros de arte. Se foi também. Um salão de cabeleireiro ocupa o espaço.

Uma parada na Casa Cavé, que fechou e mudou para a rua do lado. O antigo café, onde bebia guaraná caçulinha e comia folhado de camarão, reabriu meio modernizado, com outro nome, mas também um pouco da velha dignidade. Os doces são bons. O café é barato. A máquina da expresso é a mais bonita que já vi. Imensa, uma torre prateada de se poder ver o reflexo. Combina com o lugar. Sempre preferi a Casa Cavé à Confeitaria Colombo, que é mais uma atração turística do que um bom lugar para se comer.

No Metrô, o sistema de som informa (em português e em um inglês canhestro) que há um vagão só para mulheres. O assédio era tão grande que foi preciso separá-las dos homens. No Pavilhão de São Cristóvão, um cartaz gigantesco informa que é proibido entrar com armas de fogo. Ah, bom.

Enfim, foi o penúltimo dia. Ivan Lessa novamente me vence. A solução para deixar um lugar é aquela que preconizou em sua visita: ir embora sem olhar para trás. Simplesmente, sem se lamentar.

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Dias 4 e 5 – Simpsons e macacos (ou como volto a ser um carioca)

December 26, 2007 · Leave a Comment

Ando cheio de frases e referências por estes dias.

Uma é de Ivan Lessa, que ainda está me vencendo: nada de importante aconteceu ou acontecerá no Rio.

Essa é uma cidade cheia de não-fatos. Aqui ficava a sede do reinado e do império, mas a independência se deu em São Paulo. O comício das Diretas Já reuniu um milhão, mas a eleição não foi aprovada naquele ano. O comício final da campanha do Lula em 89 também tinha quase isso de gente, mas como tudo acabou? A passeata dos 100 mil foi um protesto que deu em nada. Bem tem a Bossa Nova, que vive do passado e não é realmente nova desde, sei lá, 1966(?).

A outra referência é a recente entrevista com Jack Nicholson publicada na Folha. O problema – diz ele – é que não há mais classe. Ninguém a possui e nem a valoriza. Vivemos uma cultura, um mundo, uma arte de vulgaridade. O Rio também é assim. Já teve classe, mas esta se esvaiu quando eu ainda era criança. Tornou-se uma cidade vulgar. Uma das coisas que me irritava antes de ir embora é a falsa cortesia, a falta de educação, o cinismo geral. Parece ter piorado muito.

Mas ainda assim – é também inevitável – estou voltando a virar um carioca. Na véspera de Natal, fui com o Hermano e a Carol (mulher dele) ao Parque Lage. Não punha os pés lá há um longo tempo. Caminhávamos por uma alameda e de repente, no alto das jaqueiras, surge um grupo de macacos. Vivem soltos no parque, que se liga à Mata Atlântica que ainda existe na pedra do Corcovado. Não sei por que o prefeito ficou tão irritado com os Simpsons. Uma das coisas notáveis do Rio é ainda ter macacos e cabras vivendo na natureza. Quem tem a sorte de morar perto da Floresta da Tijuca ou de alguma mata se acostuma a vê-los. Há cigarras por todos os cantos. Tudo isso não é vergonha. Torna a metrópole um fenômeno único.

Mais uma peculiaridade carioca: há cinemas de rua. Muitos (lembram, não-cariocas, como eram?) e em vários bairros. Não foram exterminados pelos cinemas de shopping. Pelo menos ainda.

Uma terceira referência é Nelson Rodrigues, que percebeu, ainda nos anos 50, o que o Rio é de verdade. Dizia que quando chegava ao Méier – bairro da zona norte a dezenas de quilômetros dos limites geográficos da cidade – já sentia nostalgia do Rio. O Rio de verdade é formado por uns oito bairros. Todos ficam na zona sul. No máximo a Mangueira poderia ser incluída.

A outra referência é Andy Kaufman. Kaufman percebeu que o único humor válido é o espontâneo. Por isso o Trote da Telerj é mais engraçado do que qualquer esquete que o Monty Python tenha feito. Kaufman não se importou de ser execrado por espancar mulheres em lutas fingidas. Seria como um dia Paulo Coelho dizer “Seus idiotas, eu estava mentindo o tempo todo”. O Rio já teve esse tipo de humor cruel. Perdeu-o, trocou-o pela… argh… picardia . Mas não é o caso d´eu tê-lo perdido. Tão logo me despeço do Hermano retomo uma das piadas de antigamente. Começo a parar as pessoas na rua e perguntar:

- Por favor, sabe onde fica a Rua Alexandre Rodrigues?

- O Edifício Alexandre Rodrigues, sabe onde fica?

- Estou procurando o Parque Alexandre Rodrigues. Já ouviu falar?

Carioca não admite que não conhece a própria cidade. Jamais dirá que não sabe. Se o sujeito disser que não sabe, provavelmente não nasceu ou não mora aqui. Sempre apontam algum lugar. Recebo muitas indicações. Fica em Ipanema. Fica no Leblon. Por último, um sujeito de sunga põe a mão no meu ombro e avisa:

- Ih, brother, se fosse você não ia nessa rua, não. Fica no pé do morro.

Digo que vou assim mesmo. Sigo para um lado. Ele segue para um quiosque.

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Dia 3 – A tropa da guerra (ou um pouco mais sobre Sierra Leoa)

December 24, 2007 · Leave a Comment

Esta é uma visita planejada para ser a última.

Na última vez, planejava voltar logo e fiquei cinco anos fora. Tenho esperanças de que se planejar não voltar redescubra algo que me faça querer estar aqui sempre.

Como é planejada para ser a última, a visita inclui vários roteiros sentimentais.

Hoje fui visitar meus tios (na verdade não são tios, mas é como se fossem), certamente as pessoas de melhor coração que conheço. Moram na Vila da Penha. No caminho, vi pela primeira vez a Força Nacional de Segurança. Imagem impressionante. Protegidos atrás de barricadas com sacos de areia, usando capacetes de aço e coletes à prova de balas, militares de olhar assustado e uniforme camuflado vigiam as ruas. É o mesmo caminho que fazia todos os dias para a faculdade. Há favelas próximas, mas nunca aconteceu nada no caminho. Agora virou cenário de confrontos e tiroteios.

Passo próximo à fábrica da Coca-Cola que visitei com a turma do colégio. Um dos pontos altos da minha infância. O ônibus da Coca-Cola nos levou até a fábrica, onde, depois de assistirmos a um estranho desenho em que Branca de Neve e os Sete Anões visitavam a empresa, fomos levados à linha de produção, às caldeiras (onde, dizia a lenda, um operário caiu e foi fervido vivo) e então, encerrada a visita, bebemos todo o refrigerante que aguentamos.

A fábrica fechou. O prédio está em ruínas, destruído mesmo. Segundo minha mãe, foi saqueado. Não há nem telhado. Roubaram.

Durante todo o caminho – Bonsucesso, Olaria, Penha – observo o antigo comércio de rua fechado. Tudo faliu. O subúrbio está pobre, sujo, feio, arruinado, violento. É o preço de anos, muitos, de decadência. Era um bom lugar para se viver. Fui criado na Penha. Estudava em Olaria. Desfilava em Ramos no 7 de setembro. Agora por toda parte há mais lojas fechadas do que funcionando, portas arriadas, prédios destruídos e pichados. Lojas de móveis, bancos, fábricas, cinemas, nada mais existe. A minha rua foi fechada com grades, transformada ilegalmente em um condomínio fechado. Os moradores conseguem apoio de um vereador, que usa o poder político para impedir a prefeitura de retirar as grades e a reabertura ao tráfego. Mais uma solução carioca para a violência. Apenas no jardim da casa em frente àquela onde cresci encontraram 18 projéteis de fuzil.

Quando o ônibus me deixa no destino da visita, a melancolia é inevitável. Hoje, numa entrevista, o secretário de Segurança prometeu que carros blindados vão circular pelas ruas da região. As cabines da polícia também serão blindadas. Deverão – informa – pelo menos proteger os policiais dos tiros de fuzis. E quanto às casas? O repórter não pergunta. Ele não responde. Todo mundo sabe o que vai acontecer.

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Dia 2 – The kids are allright (ou bem-vindo a 1993)

December 23, 2007 · 2 Comments

A música-tema desta visita rola o tempo todo na minha mente. É Velha Roupa Colorida, canção de Belchior que diz que o passado é uma roupa que já não serve mais.

Ivan Lessa ainda me vence, mas marquei um gol.

Vinte e oito anos não são cinco. Nem doze. Em 28 anos é possível alguém envelhecer a ponto do pensamento inevitável dele na Piauí: “como estamos acabados”. Em cinco (ou doze) as coisas não mudam tanto assim. Não estamos acabados. Fora os cabelos brancos, somos os mesmos. Até mais dignos.

Estes são os dois ex-rapazes que achavam que o tempo não iria passar nunca. Estamos sentados no Amarelinho, na Cinelândia. Doze anos é o tempo da separação. Tivemos uma briga idiota em 95 ou 96 e nunca mais nos vimos. E até que não estamos tão diferentes. Ele sempre foi minha contraparte mais alucinada. Eu fui embora para Porto Alegre, ele para Nova York. Tivemos muitos altos e poucos baixos. Amigos de muito tempo.

O terceiro cavaleiro da Apocalipse recebia a visita do filho. Não apareceu. Ligamos para ele, ele nos ligou. Marcamos um reencontro do trio para a próxima terça. Não nos reunimos os três desde 93. Antigamente fazíamos isso toda sexta. Tínhamos a piada mais boba do mundo. Íamos sempre ao mesmo bar, um antro hippie chamado Daniel. Desde dois dias antes começávamos a nos perguntar:

- E então, Daniel ou Daniel?

Um respondia:

- Acho que o Daniel.

Outro rebatia:

- E que tal o Daniel?

O que tudo começou:

- Sei não. Que tal o Daniel?

Por causa de um incidente com o Santino, o gato lá de casa, tive que tomar antirábica e antitetânica. Não posso beber. Tomo café enquanto o outro entorna chopes. Depois do oitavo, me convence a ir jogar sinuca no tradicional salão depois dos Arcos. É o mesmo salão onde jogava Madame Satã, aberto há uns 70 ou 80 anos. No último jornal onde trabalhei aqui gostava de sair após o fechamento e ir lá beber cerveja. Travestis faziam ponto na entrada. Passava por eles, encostava no balcão e ficava vendo os jogadores, mestres do bilhar. Sabia que era um intruso no ambiente. Sou péssimo, tétrico, terrível jogador.

Meu problema com a sinuca é o mesmo problema com a vida. Não sou muito bom em improvisos. Sou bom em planejar e organizar. Mas se tenho que improvisar, as coisas nem sempre saem bem. Jogando sinuca, preciso encostar cada bola antes de encaçapá-la. Gasto milhares de tacadas nisso. Contra qualquer jogador razoável perco muito antes de conseguir matar metade das bolas.

Chegamos ao salão só para descobrir que também fechou. Pode ter sido lá que Madame Satã jogava, mas agora há uma igreja evangélica no lugar. Alguém nos indica outro, mais adiante. Vamos lá. Parece muito com o antigo, porém não há mais os travestis. Está cheio de gente tatuada, indies, jovens e também jogadores tradicionais, destes que chegam com o próprio taco (sem trocadilhos, por favor). Jogamos. Incrivelmente venço. Meu adversário é pior do que eu. Três a dois para mim. A última partida certamente é a pior já disputada naquela mesa, provavelmente no salão e, mais provavelmente ainda, na Lapa. Uma hora e meia para cinco partidas. Tento me lembrar de outra vez em que venci alguém na sinuca. Me recordo de uma ocasião em Santa Teresa, mas desconfio que o adversário estava bêbado. Era de novo o caso.

Depois do jogo, circulamos pela Lapa. Eis uma boa novidade. O Circo Voador reabriu. É um local fundamental na minha vida. Quando os amigos começaram a envelhecer e se casar foi onde encontrei refúgio. Não há mais lona e sim uma espécie de domo. Há pouco rock lá hoje em dia. O show é da Monobloco. Na sexta, informam os cartazes , quem tocou foram Baia e os Rock Boys. Este sim era tradicional do local. Vi muitos shows do grupo ali por 93. O público é quase todo adolescente. Não anima a entrar.

No outro lado da rua, muitas casas antigas viraram bares. Uma festa, Loud!, anuncia a atração: ROCK. O público é mais parecido com o do antigo Circo Voador. Também não entramos, mas simpatizo com o local. Pelas dez da noite já há uma multidão nas ruas. Começa a encher os bares quando voltamos à Cinelândia para jantar. Depois de um galeto, já cansados, entramos na estação do Metrô para a volta para casa, mas então, na plataforma, decidimos ir a Copacabana. Até então tentava evitar o mar, mas acabo aceitando entusiasmado a sugestão.

Copacabana é sempre a mesma. Cheia de clichês, aquilo que o Rio diz ser. Não é, mas é um bom lugar. Acabaram-se os quiosques no calçadão. A prefeitura vendeu o espaço e surgiram bares envidraçados, limpos, com mesas metálicas bonitas e iguais. Tudo meio Miami. Também há banheiros subterrâneos. Bonitos e limpos, mas que cobram pelo uso. Meu amigo continua bebendo chopes enquanto eu bebo café. Experimenta quase todos os banheiros quando começamos a caminhar.

À uma da manhã, entre algumas reminiscências, vislumbro respostas sobre por que não tenho mais nada a ver com essa cidade. Boa parte do mau humor se deve à solidão. Carol está em Santa Catarina. Faz falta.

Mas também há outra razão. Aqui, diante de mim, está um dos grandes amigos de toda a vida. Outro se juntará a nós na terça. Um terceiro foi morar em Fortaleza. Dois morreram. Os dois que morreram fazem muita falta. Costumava sair com eles. Tinha sido na companhia de um a última visita ao bilhar da Lapa. Outro reencontrei em todas as ocasiões em que retornei até o dia em que soube que havia sofrido um ataque cardíaco. Era meu amigo mais velho. Quando nos conhecemos, eu tinha vinte, ele sessenta.

Há fantasmas presentes e nada de novo para contar. Tenho a impressão de que qualquer coisa que vejo já foi melhor.

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Dia 1 – De volta a Ruanda (ou que fim levaram as cotias?)

December 21, 2007 · Leave a Comment

Ivan Lessa continua me vencendo.

Começou sua visita de volta pela zona sul. É onde estão as belezas naturais e o Rio para turistas, onde tudo é lindo, limpo e “astral”.

Eu sou um cara do subúrbio. Meu Rio é o mesmo que o avião sobrevoa durante quase uma hora esperando vaga para pousar. Feio, cheio de favelas e meio irreal. O piloto informa primeiro que vai demorar de cinco a oito minutos a mais do que o previsto (isso que o avião já havia decolado com quase três horas de atraso). Depois desiste de qualquer informação, de modo que apenas às 10 e 40 da noite (devia ter sido às 7 e 40) o avião mal toca o solo e dá uma imensa freada que causa um solavanco geral.

Ao receber a bagagem, noto que a sacola foi rasgada no fundo. Quatro grandes rasgos. A bagagem também foi aberta e revirada. Reclamo com a Gol, que me promete uma resposta a respeito em três dias. Não perco tempo com mais reclamações, vou para o táxi. Já que está tarde, peço ao taxista que evite passar em favelas. Ele faz o contrário. Lá vamos nós. Maré, uma em Bonsucesso, outras duas em Del Castilho até que saímos em Inhaúma, onde já morei, que está mais feio, mais sujo, mais abandonado. Mais adiante, uma construção bonita. É o Estádio do Engenhão, “maravilha” construída pela prefeitura para o Pan e depois cedida a preço de banana ao Botafogo, pois se o clube não quisesse, seria um elefante branco. Chego à Abolição. Avenida Suburbana. É isso. Estou em casa.

Acordo com um barulho estridente de alto-falantes. Carros passam fazendo propaganda. Um oferece promoções para “a mais importante festa cristã”. Enquanto tomo café na varanda da casa dos pais pergunto a minha mãe por alguns conhecidos. Descubro que alguns, jovens ainda, morreram. Como?

- A milícia – ela explica.

A milícia é a solução carioca para a violência. Em vez de lei, assassinos. Sao ex-policiais que, expulsos da polícia porque eram criminosos, formaram grupos paramilitares que passaram a ocupar as favelas e expulsar (e em geral matar) os traficantes. Nenhuma autoridade se importa muito em combatê-los. As favelas ocupadas pelas milícias ficam tranqüilas por um tempo. Não há mais tiroteios, mas então as milícias iniciam a própria exploração dos moradores. Cada casa da favela próxima ao lugar onde vivi até onze anos atrás tem que pagar 10 reais de taxa de proteção. Máfia mesmo. O tráfico é proibido, porém milicianos consomem drogas abertamente.

Saio para o primeiro passeio – o centro – e me deparo de tempos em tempos com carros da PM. Do lado de fora, armado com um fuzil, um policial vigia ameaçadoramente algo de que não fico bem certo. Este é o Rio de verdade. Oitenta por centro da população convive com isso. Policiais violentos, despreparados, bandidos, canalhas, desonestos são os guardiães de todos. São coniventes com as milícias – afinal, ex-colegas. Certamente tudo acabará com a volta do tráfico – na mão dos milicianos, aliados aos policiais. Tudo ficará pior, mas todo mundo finge que não vê. O próprio prefeito apóia as milícias veladamente.

Chego ao centro. Primeira parada: o Campo de Santana. Não ponho os pés aqui há uns 15 anos. Mas já gostei de passear dentro dele. Quando eu era criança chamava-o de Campo das Cotias por causa da intensa pesença do roedor na paisagem. Agora desapareceram. Há centenas de gatos. Há patos. Mas cadê as cotias? Muita gente estranha, muitos desocupados. Aqui é o lugar onde se proclamou a República. Deodoro morava aqui perto. Mas não há mais muita dignidade no parque. É mal cuidado, é sujo, e não tem quase nenhuma cotia. Finalmente encontro um grupo de cinco delas. Brincam e comem próximas a uns patos. Não se incomodam que as fotografe. São dóceis. Tão dóceis que famintos das redondezas, anos atrás, começaram a transformá-las em refeição. Talvez seja por isso que são tão poucas.

Sou carioca. Essa cidade não me engana. Me encaminho para o almoço em um dos meus pontos tradicionais. O Restaurante Lisboeta serve frutos do mar e comida portuguesa. Meu acepipe favorito é uma empada de camarão com uma pimenta inteira dentro. A pimenta arde mesmo, exige cuidados senão a experiência será ruim. O resturante tem várias décadas e… está fechado. Passo do lugar, vou até o fim da quadra. Pergunto a respeito.

- Fechou – me informa um homem.

- Comi muito peixe ali – me diz outro.

- Eu gostava da empada – acrescento.

Acabamos os três pensativos.

Volto a pé pelo centro. Ando pelos sebos da Rua da Carioca. Os sebos do centro do Rio são os melhores do país, mas não encontro nada de bom. Estou atrás de livros de Evelyn Waugh, estou atrás de Barba Azul, de Vonnegut, e Os nus e os mortos, de Norman Mailer. Não encontro nada. Ainda com fome, decido me conformar com um pastel de queijo e caldo de cana. A pastelaria tem um aviso de que prostituição infantil ali é proibida.

Entro em um dos meus sebos favoritos. Era gigantesco. Agora só há uma prateleira e os livros são todos de Direito. O resto é uma mistura de cibercafé, loja de esoterismo e bar. Pelo menos há computadores. Peço um. A tela exige que eu preencha um cadastro, que leva mais de cinco minutos e exige até meu endereço. Então recebo um login e senha.

São 16 e 30. Ainda estou com fome. Só estou no Rio há menos de um dia e quero voltar para casa.

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Ivan Lessa me venceu

December 19, 2007 · 2 Comments

O exílio de Ivan Lessa durou mais de 28 anos. O meu durará exatos quatro anos, dez meses e oito dias. Amanhã à tarde embarcarei de volta à cidade onde nasci e para a qual, sem saber, dei um longo adeus em fevereiro de 2003.

Na verdade, não havia uma razão inicial para ir embora de vez. Meus pais ainda moram lá. No Rio, ainda tenho muitos e verdadeiros amigos. Além do mais, a última visita foi certamente a mais divertida de todas. Fui junto com o casal Medina, fiz uma penca de novos amigos, assisti a bons shows, comprei muitos livros e discos, reencontrei lugares de que gosto, conheci outros. E, no entanto, nunca tive saudades. Fui embora sem vontade de voltar.

O Rio não me faz falta e eu com certeza não faço falta ao Rio. Podia debitar essa sensação à violência (embora todo mundo que ainda mra lá garanta que a cidade está sempre tranquila, que a Globo exagera tudo, etc, o que até é verdade desde que você não more perto de uma favela e não tenha que lidar com a polícia mais violenta e/ou corrupta do país), porém em Porto Alegre em dez anos fui assaltado três vezes contra apenas uma em três décadas no Rio. Assaltos variados: invasão de casa, refém na porta de um estúdio e também dentro de bar. A resposta é outra.

Essa é a questão que tenho oito dias para desvendar: por que não gosto mais do Rio? Já tenho a resposta. Sou como nos tempos de repórter, quando já saía da redação com a matéria pronta na cabeça, só preciso que a realidade não a desminta. No dia 27, ao embarcar de volta, terei a confirmação daquilo que sempre soube, o que ficou claro tão logo me mudei, dez anos atrás, que também sentia nos dois anos em que fiquei fora na adolescência: o Rio é um deserto.

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1,2,3,4,5

December 11, 2007 · Leave a Comment

1 – Belíssima homenagem de Scorsese a Hitchcock. É propaganda, mas só se descobre depois de muito tempo. E o final é excelente.

2 – Imagens inusitadas do zoológico de Londres.

3 – Essa lista do New York Times de 53 lugares para se visitar em 2008 tem uns critérios meio estranhos. No Brasil, o único lugar que vale a pena, segundo o jornal, é Itacaré, na Bahia, freqüentado por “celebridades e a elite do Rio de Janeiro”, o que só pode querer dizer gente da Globo e traficantes. E que tal Bogotá, onde estão construindo um Hilton? A indicação de Buenos Aires (vigésima oitava colocada) como a capital “a festa nunca termina” da América do Sul só aumenta a impressão que tenho da cidade. Ainda é a melhor para se viver no continente, mas está sendo destruída e como já é tão poluída quanto São Paulo, em breve será mais um lugar insuportável.

4 – Mesmo que não tivesse Gary Brecher, a atual edição da Exile já valeria ser lida por causa desse artigo: por que parar de odiar a Rússia e passar a odiar o Brasil.

There are countless other lifestyle benefits to dedicating your life to hating Brazil, allowing you to hate in comfort. For example, Brazilians always smile, they’re always partying on the streets, and the food is spicier and richer. That means that while you crusade against Brazil’s human rights abuses, you can actually be happy and enjoy your life. Just fake the hate. Best of all for Western womyn, you might have the kind of steamy love affair with one of those greasy Brazilian dudes that you read about in harlequin romances-you know, the type who dance and who have ponytails. And let’s be honest, if there’s one thing that drives the majority of Russia-hating Western women mad here, it’s the distinct impossibility of ever having a harlequin romance in this country. The best a Western woman can hope for in Russia is a pale version of the Ike & Tina What’s Love Got To Do With It romance.

So there you have it. Brazil: A Comfortable Country To Hate.

5 – Audrey Hepburn e Peter O ´Toole, Asger Carlsen, Matt Stuart. Fotos, fotos, fotos…

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December 10, 2007 · Leave a Comment

Sensacional. Que ninguém diga depois que não foi avisado.

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December 4, 2007 · 2 Comments

Uma entrevista com o Gordo e o Magro e também com Barbara Stanwyck.

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