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Entries from November 2007

O amor – Parte II

November 30, 2007 · Leave a Comment

Pastelão foi o primeiro livro de Kurt Vonnegut que li. Foi em janeiro de 2002, numa viagem ao Rio. Absolutamente chocado pelo tema – um sujeito de cabeça grande burro demais para ser outra coisa que não o presidente dos Estados Unidos e sua irmã mais inteligente – , percebi que ali havia alguma coisa que nunca havia encontrado.

Pastelão saiu das minhas mãos uns meses depois, emprestado a um amigo que nunca o devolveu. Nunca mais voltou. Ficou a vontade de uma releitura e a lembrança de um livro muito bom, meio excêntrico, no qual os dois personagens principais eram apresentados como uma versão literária do Gordo e o Magro (o que por si só já me conquistaria).

Vonnegut o escreveu em memória da irmã, Alice, morta de câncer aos 41 anos (sua morte precedeu a do marido, 24 horas depois, em um acidente de trem). Era a irmã do meio, mais velha do que o escritor e mais nova do que Bernard, que era cientista. Reconhece logo na primeira frase ser o mais próximo de uma autobiografia que poderia chegar. Quando Bernard também morreu, em 1997, abandonou a literatura por não ter mais a quem mostrar seus originais. No caso de Pastelão, obviamente tratam-se de Vonnegut e Alice os personagens principais.

Hoje comprei uma antiga edição da Artenova, com uma capa muito mais bonita do que a outra, do Círculo do Livro. Reli na fila do banco a apresentação. Não me lembrava de quase nada dela. Linda. A perfeição em duas páginas, define tudo que sempre pensei da literatura. A vida cotidiana não é relevante. Não precisamos de personagens pequenos. Podemos fracassar na tentativa (e eu fracasso miseravelmente o tempo todo), mas estamos nessa – ou pelo menos deveríamos estar –, como Laurel e Hardy, para dar grandeza àquilo que o destino nos coloca como desafio. Quem pensa diferente devia escrever um diário.

A base do humor do Gordo e o Magro, creio eu, era que eles se esforçavam ao máximo em cada prova que tinham pela frente.

Nunca deixavam de enfrentar de boa fé o seu destino e eram fantasticamente adoráveis e engraçados na tentativa.

***

Havia muito pouco amor em seus filmes. Era freqüente haver uma poética situação de casamento, o que é diferente. Tratava-se, no entanto, de uma outra prova – com possibilidades cômicas, desde que a ela todos se submetessem de boa fé.

O amor jamais estava em questão. E talvez porque eu tenha sido tão intoxicado e educado por Laurel e Hardy durante minha infância na Grande Depressão, ache natural discutir a vida sem jamais falar de amor.

É algo que não me parece importante.

***

Tive algumas experiências com o amor ou pelo menos acho que tive, embora aquelas de que mais gostei possam ser facilmente descritas como decência mútua. Por algum tempo tratei bem determinada pessoa e essa pessoa, por sua vez, me tratou igualmente bem. O amor nada tinha a ver com isso.

Outra coisa: sou incapaz de distinguir entre o amor que tenho por gente o que sinto por cachorros.

Quando eu era criança e não estava vendo filmes cômicos ou ouvindo os comediantes que trabalhavam no rádio, costumava passar de tempo rolando nos tapetes com os afetuosos e nada críticos cachorros que tínhamos.

E ainda faço isso. Os cachorros logo se cansam e ficam confusos e desconcertados. Eu poderia continuar a vida toda.

Aiô.

***

O amor está onde é encontrado. Acho que é tolice sair à sua procura e penso que muitas vezes isso pode ser prejudicial.

Eu gostaria que as pessoas que, para seguir as convenções, declaram que se amam, dissessem umas às outras quando brigassem: “Por favor – um pouco menos de amor e um pouco mais de respeito mútuo“.

Categories: Palavras

A culpa é sempre da brodagem

November 27, 2007 · 6 Comments

Enquanto assistia Planeta Terror, fui tomado por analogias sobre futebol. No final do filme, cheguei à conclusão de que Robert Rodriguez e Júnior Baiano se deram bem na vida graças à mesma lógica. Não é que Júnior Baiano tenha sido um jogador ruim. Tinha seus bons momentos, geralmente sabia o que fazer com a bola nos pés, era grandão e ameaçador, como deve ser um zagueiro. Só que falhava tanto, cometia tantos erros grosseiros, entregava tantos jogos, que jamais poderia ter passado a vida inteira em times grandes, como passou.

Bussunda tinha uma teoria: era porque Júnior Baiano é gente boa. Divertido, amigão, ajudava a desanuviar o clima nos momentos ruins dos times. Então tinha sempre um bom contrato por ser amigo de todo mundo.

Robert Rodriguez é o Júnior Baiano do cinema. Não é absolutamente medíocre, mas jamais poderia ser um diretor do primeiro time. Simplesmente não tem talento para isso. Não consegue fazer bons filmes. Em Sin City, a exceção, compartilhou a direção com Frank Miller e, além do mais, trata-se da filmagem ipsi literis da história em quadrinhos. Quando deixado só, o resultado não vale a pena. E por que Robert Rodriguez ainda filma? Por que consegue ter Bruce Willis no elenco? Porque tem um amigo mais talentoso que participa de seus filmes, lhe cede roteiros, etc.

Então é isso. Planeta Terror é uma perda de tempo com uma hora e quarenta minutos de duração. É fake. Não se decide entre ser um blockbuster ou um filme trash de 50 milhões de dólares. Mas a culpa não é só do diretor. É principalmente de Tarantino, que o carrega nas costas.

Categories: Insanidade

Dicionário Gabbinete Dentário de expressões fora de moda

November 22, 2007 · 2 Comments

Jornalismo

Derivado da literatura inventado por Daniel Defoe com Diário do Ano da Peste, no século XVII, para que um dia essa matéria ridícula pudesse vir a existir.

Categories: Palavras

As espinhas

November 15, 2007 · Leave a Comment


As pessoas dizem que não se deve fazer isso com as espinhas, mas todo dia eu espremo uma.

Sabe como é? Põe a ponta de um indicador perto da ponta de outro indicador e aperta. O carocinho não agüenta a pressão, sai de dentro uma gosminha com um barulho: FSSSS! Limpo a gosminha e continuo apertando, mesmo quando a pele fica vermelha e sai um pouco de sangue, do jeito que deixa marca, até que no buraco surge a cabeça de um homenzinho.

Espremo mais, agora com cuidado, e o resto começa a aparecer. O homenzinho escapa aos poucos. Livra primeiro os ombros, depois os braços e a cintura. Até os joelhos. Já consegue se mexer. Tem cabelos e olhos e orelhas e boca como de gente grande. Me observa com ar curioso.

Pego-o pelas pernas e arranco de uma vez de dentro da espinha. Sacudo só um pouco para limpar a bostinha branca do corpo e verifico o estado geral. E então, enquanto ele tenta dizer suas primeiras palavras, enfio inteiro na boca.

Categories: Conto

November 10, 2007 · 1 Comment

Oito regras para escrever ficção, segundo Kurt Vonnegut, que completaria 85 anos amanhã e, como todo mundo está cansado de saber, é uma das razões da existência desse blog.

Aqui Martin Amis fala sobre clichês literários e o processo de criação.

Categories: literatura

November 9, 2007 · Leave a Comment

Nesta estrada não há homens inspirados por Deus. Eles se foram e eu fiquei, eles levaram consigo o mundo. Pergunta: Como faz aquilo que nunca será para ser diferente daquilo que nunca foi?

Estou lendo A estrada (The road), de Cormac McCarthy, certamente o livro mais comentado do ano aqui no Insanus e por quem gosta de literatura. Impressões em breve.

Categories: literatura

You probably think this song is about you

November 4, 2007 · 4 Comments

Numa tarde, voltava de carona de Gramado para Porto Alegre quando começou a tocar Carly Simon no rádio. Como a motorista não tomou nenhuma atitude, me conformei com alguns minutos vindouros de desconforto. Mas o fato é que, para minha vergonha (em 99, ainda tinha resquícios da crença de que o gosto musical é um indicativo de caráter), desde aquela mesma tarde gosto de You´re so vain. É a música, a sua destruição numa cena meio karaokê, que me fez incluir Como perder um homem em dez dias na minha lista de filmes que gosto de assistir por uma razão só minha. Há os vocais não-creditados de Mick Jagger no final. Mas, como se não bastasse, descobri toda a lenda que a cerca.

Para quem, afinal, foi escrita?

A música é de 1972 e foi primeiro lugar nas paradas dos Estados Unidos. E desde então, trinta e cinco anos, nunca ficou claro para quem era. Sempre confiei na parte da lenda que diz que é para Mick Jagger, que foi amante de Carly Simon. Bem depois descobri que na verdade era para Warren Beatty, outro ex-namorado. Porém mais depois ainda esta versão foi desmentida. O vilão passou a ser James Taylor, ex-marido. Também não é certo. Cat Stevens, Cris Kristopherson e o playboy William Donaldson são outros suspeitos.

Carly Simon nunca revelou sobre quem é You´re so vain. Não é idiota, sabe que quanto mais o mistério perdurar, mais a música vai ser lembrada. O fato de envolver tantas celebridades é uma atração. Sempre haverá um repórter que se acha esperto o suficiente para acabar com o segredo. Vão tocar You´re so vain a cada vez. E Carly Simon fará biquinho (o que no seu caso deve ser meio estranho) e nada dirá.

Na verdade, ela deu algum crédito a Beatty, ressaltando, no entanto, ser também sobre outros homens de seus tempos em Los Angeles. Em 2005, fez piada dizendo que era sobre Mark Felt, o “garganta profunda” que passou as informações aos repórteres no escândalo de Watergate, cuja identidade acabara de ser revelada. Beatty, por sua vez, garantiu numa entrevista que era sobre ele. Já Angela Bowie diz que é mesmo sobre Mick Jagger e que ela própria é citada como “wife of a close friend”.

Agora descobri esse clipe. Ainda gosto da música, mas também me pergunto o que tantas celebridades puderam querer com Carly Simon.

Categories: Música

A teoria*

November 3, 2007 · Leave a Comment

A teoria do menino é de que existe mesmo o bem e mal e no seu mundo de infância os soldadinhos verdes de plástico representam o bem e os soldadinhos cinzentos de plástico representam o mal. Ele encena combates imaginários no tapete da sala, derrubando um bonequinho quando acha que balas e estilhaços imaginários o atingiram enquanto imita o barulho de canhões e metralhadoras imaginários varrendo o campo de batalha. O menino também brinca com aviões de plástico, fazendo-os sobrevoar o tapete com pequenas bombas de plástico guardadas em seu interior. Todos os aviões e bombas de plástico pertencem ao exército verde. Cada vez que o menino aperta um botão, se abre a escotilha embaixo do avião e caem as bombas, que rolam pelo tapete e então a mão do menino sai derrubando bonequinhos cinzentos. O menino faz o som de uma explosão. Puf! Derruba de uma vez quase todos os bonequinhos inimigos. Ganha quem termina com mais bonequinhos no seu lado, no caso o verde, pois o menino acredita estar do lado do bem e que o bem sempre vence.

A teoria dos soldadinhos cinzentos é de que os bonequinhos verdes são o verdadeiro mal porque não hesitam em usar bombas e aviões e o menino no campo de batalha, enquanto eles só usam armas inúteis que nem disparam balas de verdade.

A teoria dos soldadinhos verdes é de que guerra é guerra e isso inclui usar bombas, aviões e o menino contra armas inúteis, desde que em nome do bem maior, que, aliás, eles representam.

A teoria da pequena bomba de plástico é de que os bonequinhos cinzentos são o verdadeiro mal, pois contra eles que se emprega a pior arma que o homem já criou: uma bomba. No seu frio raciocínio de artefato de guerra, o mal deve ser tão ruim que é preciso mobilizar cientistas, teorias, inteligência, tempo e matéria-prima para construir as bombas e ainda é preciso esquecer a sensatez antes de jogá-las.

A teoria dos cientistas que fazem bombas é de que cientistas, teorias, tempo e matéria-prima só são usados para fabricá-las porque existiram primeiro os soldadinhos.

A teoria dos pais do menino é de que não há nada demais em brincar de guerra, assim como não há nada de mal em brincar de polícia e ladrão, assim como não há nada demais em brincar de luta, só havendo algo demais em brincar de médico com essa idade.

A teoria do tapete é de que é melhor servir de campo de batalha do que de passadeira e o único perigo, acredita, é que algum soldadinho fique preso e arrebente as suas cerdas.

A teoria do caos diz que tudo isso tem um sentido.

A teoria dos vídeo games, carrinhos, jogos de tabuleiro, bolas e outros brinquedos do menino é de que tanto faz quem vai vencer a batalha, pois na verdade este é uma brincadeira muito chata.

* Escrito quando começou essa guerra aí. Reescrito agora.

Categories: Metafísica

November 3, 2007 · Leave a Comment

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Categories: Insanidade