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Feira do Livro

Sexta, dia 6, autografarei “Veja se você responde essa pergunta” na Feira do Livro. Será às 18h30.

Dia 19, lançamento em São Paulo, durante a Balada Literária. Também farei breve participação no De Modo Geral, evento organizado pelo Scott no Rio, que terá uma edição especial paulista.

O convite foi tentador demais para dizer não: três meses no antigo emprego, abandonado em 1997, em um jornal no Rio. A matéria enviada como teste – para ver se as habilidades se mantinham – indicava o que iria fazer: era sobre a guerra no Morro dos Macacos. O melhor de tudo era que ambas as partes concordavam com os três meses.  Lá não havia vaga, aqui não a queria.

Durante uma semana começaram os preparativos. Como cuidar do apartamento e dos gatos. Contas a organizar. E as plantas na sacada, morrerão?

Nesta quarta, tudo mudou e o jornal resolveu que só poderia ir em definitivo. Apareceu uma vaga. Seis dias para decidir uma vida inteira e a mudança para mais de mil quilômetros de casa. Apesar da vontade suicida de sempre seguir em frente, tudo terminou com a sensação de uma aventura não-iniciada.

A Calmúquia é um branco no mapa, explica Daniel Kalder sobre as razões de ter decidido visitar a república russa para escrever um livro. O branco reflete a sua importância: nenhuma. Nem mesmo na Rússia  se sabe muito daquele lugar ao sudeste, habitado por 300 mil descendentes dos mongóis e descendentes dos russos e ucranianos instalados pelo comunismo soviético após o inacreditável  exílio da população inteira do país, em 1943. Ficaram 14 anos fora e só voltaram em 1957.

Como se vive em um não-lugar? – é a pergunta de Kalder. Para comprar as passagens, teve primeiro que convencer um agente de viagens de que a Calmúquia realmente existe. Se o agente também fosse um enxadrista, talvez tivesse ouvido falar. Na capital, Elista, foi construído a luxuosa Cidade do Xadrez, uma aberração envidraçada e cara em um país pobre, onde aconteceram algumas das partidas mais importantes do xadrez internacional nos últimos anos. 

O presidente do país, Kirsan  Ilyumzhinov também dirige a Federação Internacional de Xadrez. Está poder desde 1995 e fez do xadrez disciplina nas escolas. Dirige uma república onde duas tribos mongóis ainda percorrem as estepes – de motocicleta -, a única da Europa onde o budismo é a religião oficial.

Lost Cosmonaut – o livro de Kalder – é absurdadamente engraçado. Das  observações e personagens às legendas  ( “o autor, com uma garrafa de leite, diante do Golden Gate, Elista”). Lugares como a Calmúquia, Tartistão e Mari El, a última nação pagã – também visitados -, são um mundo alienígena que justificam no visitante a sensação de ser um “cosmonauta perdido”. Estar neles é como estar fora do planeta por um tempo.

E Kalder é tão bizarro quanto as pessoas que encontra. Em certo ponto fica obcecado por encontrar o inventor do AK-47, Mikhail Kalashnikov. Em outro, permanece duas horas em um pé só no quarto de hotel só porque nenhum escritor de livros de turismo fez isso antes.

A visita a um templo budista em Elista acaba no encontro de uma raposa morta, saudado assim:

“Eu amo animais mortos e tenho uma coleção de pássaros, gatos, ratos, porcos, cães, etc, mortos. Este era um corpo relativamente fresco, de um dia ou dois. O pêlo perdera levemente a cor e seus olhos e boca estavam abertos como se tivesse morrido de um choque terrível. Agora havia um mistério: o que tinha acontecido ali? Como havia encontrado seu fim? E mais importante: como iria reencarnar?”

O antropólogo Kenneth Waltz escreveu em Introdução à Antropologia que os calmúquios nunca ficam ruborizados. Sobre eles, Kalder percebe um estranho hábito: encaram-no o tempo todo sem o menor constrangimento. Darwin, em Expressão das emoções dos homens e animais, duvidou de Waltz. Mas nunca foi à Calmúquia. O homem que ficou “vermelho de vergonha” no experimento citado por ele para provar que todos os humanos ficam mesmo ruborizados tampouco era um calmúquio. Na verdade, era um chinês.

Slow wave

Sou fã de Jesse Reklaw e de toda a idéia por trás do Slow Wave, um projeto em que ele escreve o roteiro e desenha uma tira com sonhos de pessoas enviados do mundo todo.

Os Massa

Mais um vídeo perdido do show na Redenção, agosto de 2009.

Um samba sobre nada/ Para acabar a quinta-feira/ Pois na boca fechada/ Não entra mosca/ E não sai besteira.

140 vezes.

Sambinha

Ficou para morrer/ Ao ouvir ela dizer/ Que todo niilista/ É um emo sem saber

(140 vezes)

Mundo perfeito

Próximo lançamento de “Veja se você responde essa pergunta”: sábado à noite na grande invasão dos autores da Não Editora à livraria Arco da Velha, em Caxias.

Caxienses, apareçam.

Depois que Maria José foi embora o que ele mais fez foi se lembrar que na penúltima noite em que estiveram juntos ela acordou-o no meio da noite, trêmula e excitada, para contar uma história infantil, chamada “O pato preto”, que havia criado e era sobre um pato que nasce com as penas totalmente negras numa ninhada de patos brancos e, em vez de ser rejeitado, como em qualquer outra história infantil, passa imediatamente a ser venerado pelos outros como um tipo de deus.

Um violento regime de terror se instalou desde os primeiros dias do reinado do pato negro, que não se mostrou um deus muito sábio, espalhando discórdia e infelicidade por toda parte no grande terreno, que se juntava a outros grandes terrenos, onde viviam muitos tipos de patos. Todas as manhãs estes patos se moviam para a beira de um riacho e passavam o resto do dia a conversar. Faziam uma grande balbúrdia, grasnando em diferentes tons e às vezes muito alto. A comida era abundante e bastava para todos,  que poderiam se dar ao luxo de muitos períodos longos e calmos não fossem as decisões infelizes do pato negro, que a todo momento mudava de opinião sobre as regras que deviam seguir e como tinham de viver.

Implicava principalmente com o fato de todos os patos comerem projetando a cabeça para a frente e para trás, o que tentou compensar com nada menos do que três mandamento a respeito, inclusive aquele que passou a obrigá-los a um malabarismo alimentar, atirando os grãos de milho ou qualquer outro tipo de comida para cima para depois capturá-los com o bico. Tanta foi a revolta a respeito que o pato negro, contrariado, se viu obrigado a recuar e fazer voltar a situação anterior, razão de muita mágoa e despeito pelo episódio.

(E enquanto falava, Maria José arrumava os cabelos com um gesto que sempre achou absolutamente encantador. Lia com entusiasmo quase infantil o pedaço de papel onde pôs as anotações. A voz, em um tom levemente monocórdio, soava adequada para este tipo de apresentação. Não era possível reclamar da sua falta de empolgação quando se interessava por alguma coisa. Mas na maior parte do tempo agia quase sempre guiada pelo desespero de quem não consegue se livrar de uma tristeza sem motivo. A razão pela qual episódios assim o empolgavam tanto).

Não demorou até surgirem os primeiros conspiradores, os mesmos que antes haviam entronizado o pato negro em seu posto de deus. De um pequeno grupo partiram as providências para o seu assassinato. No entanto, o pato negro consegue destruir seus inimigos no final promovendo uma matança inspirada em O Poderoso Chefão.

Moral da  história: nunca despreze as alianças políticas.

Ele perguntou: “Sobre o que é o script?” Eu respondi: “Uma mulher fazendo sua dissertação sobre feminismo em busca do  papel do homem moderno na era pós-feminista”. Houve um silêncio. E ele disse: “Eu nunca consegui pensar em como fazer todos (os casos) se relacionarem juntos”. O que soou bárbaro. Foi provavelmente um dos maiores dias da minha vida.

John Krasinski, que dirigiu Breves entrevistas com homens hediondos, o filme, era um estudante em 1999 quando decidiu virar ator depois de uma leitura de Breves entrevistas com homens hediondos, o livro. Por anos tentou obter os direitos de filmagem sem ser levado a sério até conseguir um papel de sucesso: é o Jim na série The Office. Quando esteve com David Foster Wallace, rolou o diálogo reproduzido acima.

Pelo trailer, o filme promete.

De volta do Rio.

Na sexta, um bate-papo comigo, João Paulo Cuenca e Paulo Scott sobre a nova literatura brasileira, o lançamento de “Veja se você responde essa pergunta” na Livraria da Travessa, no Leblon, e, junto com  o que estimo ter batido em uma dezena de chopes por cabeça, na média, um “dinossauro à milanesa”.

Pela segunda vez seguida me senti bem de verdade ao visitar a cidade.

No Rio

Convite-RJ

I’m not upset that you lied to me,

I’m upset that from now

on I can’t believe you

The Nietzsche Family Circus.

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