Da maneira como eu vejo, isso tem muito a ver com o ano em que nasci.
Foi em 67, o que não causaria problemas não fosse o fato de que minha adolescência se deu nos anos 80. Os idiotas costumam chamar o pessoal dos anos 60 de hipócrita, mas a verdade é que a hipocrisia veio depois. Os anos 70 são a verdadeira década da hipocrisia. Os 80, o triunfo do cinismo.
Alexandre Rodrigues foi um rapaz que sempre se sentiu um estranho no tempo em que vivia. Tinha imensa dificuldade em beijar uma garota e não namorá-la. Tinha paixões absolutamente arrasadoras por garotas que às vezes não hesitaram em deixá-lo arrasado. Não sabia se proteger, enfim.
Continuou do mesmo jeito na idade adulta e assim foi até os 30 anos. Então se apaixonou, se mudou para Porto Alegre e outra vida começou. Foi viver com uma mulher de temperamento forte e irônica, com quem tinha em comum pelo menos 99% dos gostos, fosse música, cinema, literatura ou programas de TV. Foi beber e usar drogas em quantidades e variedade não recomendáveis. Viveu com ela pelo excesso por mais ou menos dez anos criando em torno de si uma carapaça de mau humor. Tornou-se o que nunca imaginara que se tornaria: um cínico.
Quando mais distanciava do antigo Alexandre Rodrigues mais me sentia distante de todos. Evoluí – ou decaí – até um ponto em que podia me comparar a Hagar, o Horrível. Passava os dias apostando na Bovespa, chapado, sem banho, cansado de qualquer convívio social, ocupado em ser esnobe e triste. Não tinha nenhum sinal do antigo eu na superfície.
Um dia, de qualquer maneira, a mulher que era razão de seu estilo de vida inconsequente e bem protegido se cansou e abandonou-o. Ela nunca teve culpa de nada. Foram escolhas minhas. Aconteceu em agosto de 2007. Naquela noite, meio fria, o ogro morreu. Mas o outro, o anterior, não podia ser trazido ao mundo. Voltaria a sensação incômoda, me sentiria perdido no tempo de novo. Estava ferido demais, solitário, vazio. Queria minha vida de volta. Precisava de proteção.
Então, semanas depois, inesperadamente, essa moça apareceu.Não podia ser mais diferente. Era jovem, 14 anos mais jovem, fina, inteligente (muito), engraçada, classuda, dedicada a usar roupas que fogem do padrão indie. Apesar de linda, bem diferente do padrão de mulher que sempre me atraiu. Era alta, gostava de músicas diferentes, bandas de jovens. Nossos filmes eram diferentes, praticamente todos os gostos eram diferentes. Não encontrava conexões. Quase todo dia terminávamos para fazer as pazes apenas horas depois. Estava sempre sendo levado de volta sem saber bem o porquê.
Bem, esta moça também tinha uma fama não muito recomendável. O jeito apaixonado, sincero, autêntico é totalmente inadequado para uma cidade tomada de idiotas como Porto Alegre. Morei em três Estados e cinco cidades. Aqui é o único lugar onde homens tratarem suas mulheres feito lixo é um estilo de vida. Podemos trair e todos nos protegem, acham natural. A maior parte dos amigos é assim. Há uma imensa tolerância de todos – delas também – com essa questão. Talvez seja a tradição machista dos gaúchos, sei lá. Nunca perguntei a ninguém o motivo da atitude.
Por outro lado, ai da mulher que cometa o mínimo deslize. É tachada logo: maluca, drama queen, tarja preta. Carol é a uma pessoa sensível, mas também dada a rompantes que a levaram a algumas atitudes realmente exageradas. Um comportamento fatal em um lugar onde os homens tudo podem e as mulheres nada podem.
Em conseqüência, fez inimizades e ganhou fama de louca. A beleza foi um fardo. Atraiu homens, mas também o veneno implacável das mulheres. Como alguns destes eram “famosos” (haha) no mundo indie (faculdades de comunicação + dois ou três lugares), ganhou mais um título: groupie.
Quando começamos a sair, foram as referências que encontrei. Amigos, achando que eu estava fragilizado, viram-na como uma aproveitadora. Se eu era escritor, se fazia parte de uma banda, estava sendo usado. O inferno começou à nossa volta. Um inferno causado pelas boas intenções, é certo, mas um inferno.
Foi, ironicamente, pior. Estava pronto para a groupie. Lidaria fácil com alguém capaz de não se machucar. Não estava pronto era para quem ela se revelou: a mais generosa e mais doce pessoa que já conheci. Simplesmente perfeita. Todas as qualidades que valem a pena numa pessoa só. Mas não era quem eu esperava. Queria em vez disso minha proteção de volta. Queria ser cínico como todo mundo. Não podia me abrir. Em conseqüência, feri muito essa garota para afastá-la de mim.
Ela, no entanto, sempre ficou. Pagou minha agressividade com lealdade, as crises de saudade de outra mulher com dedicação e respeito. Quando nos encontramos, me sentia morto por dentro, vivendo em um apartamento com as paredes e móveis em ruínas, a vida completamente parada, saudoso de um casamento idealizado que só existia na minha cabeça. Carol organizou tudo à minha volta. Menos de um ano depois comprei um apartamento. Mais alguns meses e terminei de escrever meu primeiro livro.
Foi parceira, companheira, esposa, meio mãe, muito namorada, infantil quase na maneira esperançosa de ver um casamento – o seu primeiro – com o que respondi com amargor e deboche pela maneira como era capaz de ver as coisas.
Nos últimos 18 meses protagonizamos um embate, cada um com as armas que tinha. Cada triunfo recebeu de mim uma dose de desprezo. O livro, mesmo se tratando de um autor iniciante, vai ser publicado pela primeira editora para onde mandei os originais, uma editora de prestígio local. Voltei a escrever reportagens e a publicar em revistas onde sempre quis escrever. No entanto, não dava importância a nada disso. Não queria me sentir bem. Me sentir bem tinha um preço: voltar a ser quem eu fora um dia. Aceitar seu amor e correspondê-lo na mesma medida. Tinha muito medo.
Estava sempre perplexo. Como alguém aceitava ser assim? Que direito tinha de melhorar a minha vida? Por que não era cínica como todos? Por que razão não gostava de falar mal dos outros e ser vista como autêntica? Por que se magoar tanto com as maledicências alheias? E a falta de maldade? Enfim, como podia ser tão boa numa época e um lugar que não valorizam nada disso?
Era preciso um desfecho. Algo ruim acabaria acontecendo e aconteceu. Um mês e pouco atrás fui eu a deixá-la. Não acreditei que ela realmente amava as músicas que compunha e tudo que eu escrevia. Não dei importância ao fato de que sempre foi criativa, genial mesmo, e ao quanto isso me agradava. Nenhum respeito por sua capacidade de organização e a maneira como tirou do nada uma empresa.
Um mês atrás achava que seria triste, mas estava solucionado. Voltaria à vida anterior. Encontraria alguém que gosta dos mesmos livros. Outra pessoa cujos gostos seriam 99% iguais aos meus. Em suma, me apaixonaria novamente por mim mesmo. Me livraria daquele amor que me desconcertava. Nada das manifestações públicas de afeto que tanto a deixariam feliz. Me deixava absolutamente constrangido não ser blasé.
Eu tinha defeitos que me incomodavam e que não haviam desaparecido em dois casamentos. Mas uma mulher – calculei – ainda se encarregaria de me salvar de mim mesmo.
Então aconteceu o inesperado.
Ao longo da vida nunca tive problemas para terminar relacionamentos. Alguns casos relatados no conto que abre o livro são realmente autobiográficos, embora não a história em si. Trata-se de um homem que sempre se desinteressa por suas mulheres depois de um tempo. Me desligava rapidamente, embarcava em outro caso e pronto. Foi assim que vim parar em Porto Alegre. Desta vez não. A dor foi realmente forte. Incontrolável. Muito pior do que na primeira separação, embora o casamento tenha sido bem mais curto.
Vão continuar existindo mulheres bonitas e/ou interessantes e sempre vou achá-las bonitas e/ou interessantes. A cidade está cheia de gente que já leu Ulysses e qualquer dos meus escritores favoritos. Mas ao mesmo tempo não é o que as torna únicas.
Com esse jeito dela, tirou de dentro de mim o cara feio em que os primeiros dez anos aqui me transformaram e me trouxe de volta. Eu não queria voltar. Deixá-la foi minha tentativa desesperada de continuar sendo uma pessoa ruim. Não aceitá-la de volta foi meu jeito de tentar ter de volta o Alexandre que antes não sofria, pois sempre tinha uma frase cortante para tudo ou estava tão chapado que não se importava. Engraçado que os médicos digam que maconha causa depressão. Eu sempre fumei para não precisar pensar em como me sentia triste.
E de repente cada hábito ruim desapareceu. Não era uma questão de qual mulher ia me resgatar. O amor dela me salvou.
A respeito do amor perfeito, Tom Robbins escreveu o seguinte:
“When we’re incomplete, we’re always searching for somebody to complete us. When, after a few years or a few months of a relationship, we find that we’re still unfulfilled, we blame our partners and take up with somebody more promising. This can go on and on–series polygamy–until we admit that while a partner can add sweet dimensions to our lives, we, each of us, are responsible for our own fulfillment. Nobody else can provide it for us and to believe otherwise is to delude ourselves dangerously and to program for eventual failure every relationship we enter”.
Foi a última vez em que falei de mim mesmo em um post. Os amigos sabem como sou terrivelmente tímido. Este é um blog sobre literatura e outras bobagens. É irrelevante de muitas maneiras. Talvez tenha mesmo perdido a razão de existir. Expor assim as entranhas é minha maneira de encerrar uma jornada e compartilhar uma verdade sem subterfúgios. Podia escrever ficção a respeito, mas não seria honesto.
Tudo tem a ver com outra citação de Tom Robbins: as pessoas nunca são perfeitas, mas o amor pode ser. É a única maneira pela qual o medíocre e o vil podem ser transformados. Perdemos tempo procurando o amante perfeito em vez de criá-lo.
Cometi o erro de um dia ter me transformado em medíocre e vil, mas sou mesmo um sortudo. Alguém não me salvou, mas me fez ter vontade de me salvar. Mesmo que ela me odiasse, não destruiria esse amor. Foi ela que me deu. É inabalável. A cada dia em que sobrevive me sinto mais forte.